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| Foto: MorgueFile |
Por Marcelo Rock*
Um
rapaz dorme em sua cama, dentro de uma casa humilde. De repente, ouve o barulho
de um sino de igreja ao longe. Ele sabe que é hora de levantar e se prepara para mais uma jornada dura de trabalho no campo. Depois
de muitas horas mexendo com a terra, novamente o barulho do sino: hora de ir à missa. Após a missa, retorna a sua casa, para descansar e, então, repetir tudo
no dia seguinte. O oficio aprendeu com pai que por sua vez, aprendeu com avô do
rapaz, e por muitas gerações, a vida não mudava muito. Sempre a mesma rotina,
os mesmos lugares para ir e fazer as mesmas coisas.
Isso
parece bem monótono e no mínimo chato. Na sociedade feudal da Idade Média, não
existiam muitas aspirações e nem ambições de mudança do status social. A vida era
o que sempre foi, quando já se conhecia o próprio papel na sociedade. A palavra
indivíduo ou cidadão não existiam, pois isso é um conceito moderno. Nesse
ambiente rural, o singular era desprezado, e a pluralidade ou o conjunto de
pessoas era valorizado por seu encaixe na maquina que fazia tudo funcionar.
Como engrenagens em um relógio, o todo era importante, e o papel de cada um era
simplesmente, contribuir para o conjunto continuar em rotação. O camponês
produzia, os soldados mantinham a segurança e a ordem, os nobres administravam
e o clero dava a benção à tudo isso. Sem anseios, sem crise existencial ou de
identidade. Tudo era praticamente pré-definido, pelo menos no consenso geral.
Os especialistas da área médica dizem que o mal do século hoje é a depressão. Por
que será?
Pois
bem, se imagine indo a um supermercado comprar um sabonete. Aparentemente uma
tarefa simples, inocente e corriqueira. Ao chegar á seção correspondente, você
observa que na gôndola existe uma variedade interminável de opções de
sabonetes: sabonete líquido, em barra, sabonete para pele seca, pele oleosa,
para pele escura, pele clara, pele sensível, pele normal, com cheiro de flores,
cheiro de frutas, cheiro de nozes, aveia, leite, folhas e casca de árvore, com hidratante,
sem hidratante, com vitamina, com proteção contra germes, com proteção contra
os raios UV... E isso tudo além da variedade de preços. Então,
nessa agonia de não saber qual levar, você fecha os olhos, e pega um sabonete
qualquer e começa a andar de forma determinada em direção ao caixa, porém com
uma única certeza; de que deixou muitas opções para trás. E nesse “extenso”
caminho para o caixa, algo lhe consome por dentro, uma pergunta terrível que
assombra á todos em nossos dias: será que fiz a escolha certa? Qual profissão
eu devo escolher? Vou fazer faculdade de que? Será que não seria melhor abrir
um negócio próprio? Com quem casar? Será que essa pessoa vai ser boa para mim?
O que ela tem de melhor do que as outras? Devo acreditar na Teologia da Libertação?
E a da prosperidade? Qual deve ser minha postura diante da Renovação
Carismática? Vou seguir por um viés mais tradicional? u virar ateu de uma vez e
parar com essas dúvidas?
Nunca
estivemos em tempos tão conturbados, nos quais tudo se questiona. A nossa crise
é ter tanta opções e ao mesmo tempo, não sabermos escolher. Existem duas
passagens bíblicas que se entrelaçam nesse momento para tentar responder essas
questões. A primeira vem da sapiência de Salomão: "Tudo é ilusão e corrida
atrás do vento" (Ecl 2, 17). Na Bíblia talvez não exista um livro mais
“depressivo” e verdadeiro que este (Eclesiastes). Ele nos passa uma sensação de fim de festa, tipo, deitar e morrer por que agora nada faz sentido, mas... não é bem assim. Se olharmos melhor, ele nos mostre o contrário, ele nos desafia a crescer
e enxergar as coisas como são de verdade. O outro vem do próprio Jesus, por
intermédio dos evangelistas Mateus e Lucas, que conta sobre o homem que
constrói sua casa na areia e o que edifica sobre a rocha (Mt 7, 24-27; Lc 6,
47-49). Acredito
que se misturem na ideia de repensarmos quais nossas referências e as nossas
bases. Salomão fala da busca por coisas que no fundo no são importantes de
verdade, e por isso chama de vaidade. São supérfluas, superficiais, são valores
“gasosos” da vida, princípios sem fundamentos, massagem no ego, crendice,
superstição, não passam de vento. E mesmo assim, muitas pessoas consomem suas
vidas correndo atrás. A palavra vaidade aqui tem peso de conceitos de coisas
vãs. Não se trata da aparência externa, mas sim interna. Já em Mateus e Lucas, temos a areia, que funciona de forma parecida com o vento
citado em Eclesiastes. Sem valores, sem base, os princípios medíocres, podem
simplesmente fazer sua vida desmoronar, pois não passam de areia, que não
sustentam uma edificação.
As
nossas crises existenciais nas escolhas só existem, quando as nossas buscas são
vento, coisas descartáveis, e promovem uma construção instável sobre a areia.
Essas crises nos jogam num mundo de incertezas, por não oferecerem paz pra
alma, por não resistirem á ação do tempo, por serem insuficientes ou em
constante mudança. Abrir mão da vaidade de querer provar que se esta certo, que
é melhor que o outro ou que tem mais sucesso, é mais próspero, mais fervoroso,
mais crente, mais dedicado, mais espiritual, mais magro, tem um celular mais
moderno, viaja pra lugares mais legais, tem mais amigos no Facebook, tem mais
mensagens compartilhadas do que simplesmente curtidas. Veja que até nas coisas
que deveriam ser boas, dependendo da postura, se transformam em coisas ruins
que só refletem o quanto somos egoístas, mesquinhos, e vaidosos.
Essas
coisas parecem ser importantes, para um mundo com uma realidade vazia, de
coisas que são lindamente embaladas numa ótima propaganda, mas que não oferecem
aquilo que prometeram. Formam pessoas feitas de areia e vento. O
Apóstolo Paulo nos da a grande dica em sua carta aos Filipenses: "Tudo
que é verdadeiro, tudo que é honesto, tudo que é justo, tudo que é puro, tudo o
que é amável, tudo que é de boa fama, e se há alguma virtude se há algum
louvor, nisso pensai." (Fl 4,8).
*Marcelo Rock é historiador e reside na periferia da zona leste de São Paulo. Sua espiritualidade vem de berço protestante, mas nos dias atuais, diz ter uma visão abrangente e ecumênica. Crê que a pluralidade exagerada de igrejas cristãs é prejudicial, pois nos divide e é exatamente o contrário da Palavra, que prega a união em Cristo.
