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| Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas |
Por Lula Ramires*
Há alguns anos, o cineasta norte-americano Michael Moore –
que dirigiu inúmeros documentários e filmes bastante críticos com relação a certos
aspectos e valores da sociedade dos Estados Unidos – afirmou que o
reconhecimento dos direitos dos homossexuais eram, em suas palavras, “a última
fronteira” a ser vencida no mundo civilizado. Moore referia-se ao fato de que havia-se
avançado nas conquistas sociais através das garantias trabalhistas, nas lutas
emancipatórias da população negra, na equidade entre mulheres e homens, entre
outros, mas que as pessoas LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, travestis e
transexuais – permaneciam no limbo, sendo alvo de violência psicológica e agressões
físicas, sem que fossem respeitadas como cidadãs e cidadãos integrais.
De todo modo, olhando retrospectivamente, observamos que muita coisa mudou no Brasil e no mundo com relação aos grupos que alguns chamam de "minorias". Esse termo, porem, é inadequado por dois motivos: primeiro, porque
numericamente negros e mulheres são majoritários em nossa sociedade; segundo porque
remete a uma ideia de minoridade insinuando que se trata de "menores” (por exemplo, no
quesito da idade) e que, portanto, precisam ser tutelados e protegidos. Além disso, embora os
avanços sejam inegáveis, ninguém em sã consciência pode dizer que em nosso país
o racismo e o machismo tenham sido eliminados, ainda que hoje existam dispositivos
legais que os coíbam.
Mas a “última fronteira”, aludida por Michael Moore, parece
ainda persistir quando se fala nas questões da orientação sexual e da
identidade de gênero. Se, por um lado, há um grande número de sentenças
favoráveis aos LGBT emitidas pelo Poder Judiciário, por outro, no campo legislativo isso
não ocorreu e no âmbito do Executivo, as poucas ações afirmativas implementadas
estão sob constante ameaça de serem perdidas ou até mesmo revogadas devido à pressão
de grupos conservadores, de cunho moralista, apoiados em visões religiosas
fundamentalistas (isto é, que não atentam para o cerne da fé e se prendem a uma
leitura literal, não contextualizada, dos textos sagrados).
Em função do quadro acima, constata-se que a
situação daqueles que não cumprem a norma socialmente imposta – que exige que
todas e todos sejam heterossexuais e se comportem de acordo com o sexo biológico
com que nasceram – é ainda muito dura e permeada de dificuldades em todas as
esferas: na família, na vizinhança, na escola, no trabalho, nos locais de
lazer... e inclusive nas igrejas. Nestas, ainda vigora a concepção de que não é
possível ser cristão e LGBT ao mesmo tempo. Como se essas pessoas não fossem
filhas e filhos do mesmo Deus a quem aprendemos a chamar de Pai, desconsiderando que somos irmãos e irmãs e, portanto, responsáveis uns pelos outros.
Mas a fé, aquela que remove montanhas e que nos coloca de pé
e a serviço de algo maior, que nos ultrapassa, que nos mobiliza, que nos
ilumina, também existe entre LGBTs. Há ainda muita incompreensão sobre estas
pessoas por parte daqueles que acreditam que “são assim porque querem, porque
escolheram confrontar a sociedade”, o que não é verdade. Nas próximas postagens
neste blog, tentaremos aprofundar esta questão.
E, realmente, existem tanto dentro da Igreja Católica quanto
nas outras denominações cristãs (e também nas não-cristãs), grupos de pessoas
que assumiram uma luta que é ao mesmo tempo pessoal e coletiva: a de mudar a
visão ainda estreita e equivocada sobre a diversidade sexual.
Por isso, finalizo este primeiro texto, comemorando o fato
de que, nos dias 1 a 4 de outubro passado, ou seja, na antevéspera do Sínodo
sobre a Família em Roma, reuniram-se indivíduos e representantes de grupos católicos LGBT para conclamar aos Bispos que examinem com carinho a situação destas pessoas no seio da Igreja (clique aqui para ler a Carta redigida ao final deste encontro). A grande inspiração para tal
veio do próprio Papa Francisco que disse: “se uma pessoa é homossexual e ama a
Deus, quem sou eu para julgá-la?” Abre-se então o caminho para uma nova
abordagem pastoral, ainda que neste momento não esteja no horizonte nenhuma
mudança na doutrina da Igreja. Por isso, continuemos na estrada, com fé e muita
esperança, para enfrentar os obstáculos que certamente virão.
Em sua obra magistral, a peça de teatro Bodas de Sangue, o escritor espanhol García Lorca colocou estas
palavras na boca da mãe do noivo: “enquanto se vive, se luta.” Vamos em frente,
pois atrás de nós, vem gente!
*Lula Ramires é membro da coordenação do GAPD (Grupo de Ação Pastoral da Diversidade) que atua na região metropolitana de São Paulo. É graduado em filosofia e é mestre e doutorando em educação pela Universidade de São Paulo. Desenvolve formações para educadores e outros profissionais em gênero e diversidade sexual.
